23 fevereiro 2011

Havia algo como o piscar; não resisti.

Primeiros Encontros

Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, como a Epifania,
No mundo inteiro, nós dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um
    pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada
    abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio,
No outro lado, para além do espelho.

Quando chegava a noite eu conseguia a graça,
Os portões do altar se escancaravam,
E nossa nudez brilhava na escuridão
Que caía vagarosa. E ao despertar
Eu dizia, “Abençoada sejas!”
E sabia que minha benção era impertinente:
Dormias, os lilases estendiam-se da mesa
Para tocar tuas pálpebras com um universo de azul,
E tu recebias o toque sobre as pálpebras,
E elas permaneciam imóveis, e tua mão ainda
    estava quente.

Havia rios vibrantes dentro do cristal,
Montanhas assomavam por entre a neblina, mares
    espumavam,
E tu seguravas uma esfera de cristal nas mãos,
Sentada num trono ainda adormecida,
E – Deus do céu! – tu me pertencias.
Acordavas e transfiguravas
As palavras que as pessoas pronunciam todos
    os dias
E a fala enchia-se até transbordar
De poder ressonante, e a palavra “tu”
Descobria seu novo significado: “rei”.
Objetos comuns transfiguravam-se imediatamente,
Tudo – o jarro, a bacia – quando,
Entre nós como uma sentinela,
Era colocada a água, laminar e firme.

Éramos conduzidos, sem saber para onde;
Como miragens, diante de nós recuavam
Cidades construídas por milagre,
Havia hortelã silvestre sob nossos pés,
Pássaros faziam a mesma rota que nós,
E no rio peixes nadavam correnteza acima,
E o céu se desenrolava diante de nossos olhos.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

Arseni Tarkoviski

18 fevereiro 2011

Ou Ritmo Ou Joana d'Arc

O que sinto não sei descrever. Essa estranha sensação remete a alguma coisa como um dedo em contraponto com o nariz, é um apertar tão fundo que temo que minha pele rasgue. Não esperava por essa ponta me contra apontando, por essa postura de recusa que também recusa deslocar o dedo daqui e a omoplata dalí para algum lugar mais quentinho. No fogo o corpo é tão frágil. Quero afirmar, mas tudo que me cabe é perguntar por que ainda insistem em balançar suas cabeças em frágil negação? Também nego. Não, Não. Não nego, impostores. Vocês negam e sabem que jamais repetirei esse torcicolo, zelo tanto por minhas dores. E os culpo tanto, já que meu pescoço mordido sequer teve o direito de se sentir doído. Queria escrever o que sinto e antecipar o que se tornará medo, mas meu pescoço foi mordido pelas lâminas da guilhotina e minha cabeça rolou. É tudo tão vermelho.


Meus olhos ainda reproduzem o fogo da lamparina, em meus olhos ardem chamas. Das trevas à luz. Do que eu fui ao que jamais serei. Devo dizer que soa como um delicado arranhão nessa ausência de tempo. Não esperava por essa posição já que nunca havia me ocorrido nada. Nada é nada, seja êxito ou hesitação por ser pavio curto. É natural. Não tenho sequer coragem de piscar. O medo de queimar meus cílios e pálpebras cria uma tensão desnecessária, e se forem espertinhos, notarão que tudo é tão próximo do prazer. É a natureza. Outrora esse incêndio seria tão oportuno para meu calafrio, mas agora, para quê tantas faíscas? Iria perguntar, mas tudo que me permito é afirmar que meu papel como narradora é fazer a ciranda girar. Batam palmas, escravos. Ou assoviem. Desculpem-me, mas a dança pede isso. Movo-me por todos os cantos, estou à procura da minha cabeça.


17 fevereiro 2011

Três Tempos

ainda parado:
observava as rachaduras do muro de uma só cor quando começou a chover. eram pingos de água do céu, era sua graça
os pingos manchavam o muro para uma segunda cor criando uma atmosfera que me fazia rachar por dentro achar que meus olhos estivessem cansados
ambientei-me aos poucos nessa segunda cor que estava tomando forma transbordando linhas batendo pingos na parede em mim
fui seguindo com os olhos mãos corpo e espírito os traços que esses pingos, essa nova cor, formavam
não sabia o que era mas sensações se refletiram em mim como se eu estivesse dentro de um marasmo espelhado pois pude perceber que esses traços espalhados eram agora compostos por frases soltas de um parágrafo seu. frases suas que reverberavam em mim

já andando:
me afastei e pude ver embaçada pelos pingos deformada pelas traças a sua face oriunda da chuva; você bateu-me como uma revelação

não me conformando: 
selei sua boca tracejada com um beijo celo-fane forçando-te a sair do muro pingado e vir a mim azul e borrada pela chuva. 

13 fevereiro 2011

dez e vinte-nove

Faz dez horas e vinte nove minutos que o astro-mastro que brilha, nos ilumina -poste infindo-, se desloca sola(r)mente para minha destra (aceno na tentativa de fazê-lo volver, me ver, quero puxá-lo para me aquecer), porque está tão escuro. Penso segundo-a-segunda, sinto minuto-a-minuto os pequenos deslocares-dez-colares diamantes dessa engrenagem que é chamada de 'poente' (meu braço cansado cedeu, se deu por vencido). O caso é que nesses tantos moveres o ocaso ocorreu: em mim não mais é luzente aquilo que um dia me corou, me queimou; mesmo sem mãos ou pés no chão, devo seguir o sol, devo seguir o sol, o brilho, devo seguir o sol, seu brilho diamante.


“tantas cores, tantos amores”

(respiro)

“ainda há cores, não mais amores”

Alerto que minhas capacidades adentram no meu estado "calamidade". Se preferir, pode intervir e dizer que me dará um banho quente e que me ensaboará, mas nunca diga que se trata de um mergulho, pois logo em seguida direi “não se assuste com o tempo de submersão. Não sufocarei, afinal, é uma espécie de apnéia que pratico em você” e então estaremos no exato local a farei soltar gritinhos abafados contra um travesseiro que me cheira, travesseiro-eu, travesseiro-parede, travesseiro-corda que te sufoca e seu pescoço marcado por meus dentes-tambicu.

Suas mãos-desesperadas procuram exasperadamente um sustento. Mas o que você não sabe é que te sustento-alimento com o travesseiro, o enfiando cada vez mais pro-fundo de sua boca, até suas unhas deixarem minha pele em paz.

tudo o que me interessa nessa cena é sua mão que acenará na tentativa de fugir de impedir que o meu sol ilumine o seu di-amante que meu sol se aproxime de seu dia-mante e que entre através da nossa janelinha revestida de sarcasmo na precisa posição-cintilar da pedra-dente pedra-perene que brilha e está ali tão bonita brilhando ao nossos olhos escornada ao som do jazz-sirene que toca em seu 'lon plei' brubeck voltemos back voltamos it’s long play i say baixinho cochichando em seu ouvido baixinho até acabar o som o sax e não agüentar e sufocar seu fim para que você descubra enquanto sufoca que o presente se encontra no passado embaixo de uma pedra vermelha que talvez um pássaro tenha derrubado em sua jornada para casa causando algum estrago naquelas palavras que ocultam e sempre ocultaram palavras no passado-memória-passada.

mistério porque agora é meia noite ou uma mera estupi-dez colares diamantes em meus bolsos e você imóvel cor lilás na cama com seu sustento-travesseiro na boca.