Ao cruzarem aquela porta sabiam muito bem que entrariam em lugar exótico, talvez a Grécia, e que poderiam encontrar um bouzouki abandonado, um livro deixado sem ponto final, qualquer coisa. Primeiro encontraram a escuridão. Viram estrelas. Constelação-dela-Touro. Mãos no interruptor. Fez-se luz: gostoso-estranhamento. Agora poderiam escrever, compor os atos, movimentando-se em ritmo próprio a partir do som do bouzouki. Saltaram, então, para uma tão redonda cama - mais parecida com um relógio - que seus corpos só poderiam ser ponteiros - ele o de minutos, ela o de horas mais baixa que era- apontando esses vertiginosos movimentos corpóreos e temporais: para sempre guardados naquele quadro luminoso, grande espelho, testemunha viva, cúmplice dos distintos movimentos dos ponteiros, de um relógio com vida própria.
Naquele dia, um temporal alagou a cidade.
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