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Deitados, andaram vagarosamente pelas rachaduras do teto, virando a cada esquina, criando rotas de fuga, desenhando possibilidades, até resolverem rolar, tropeçar um no outro, sentir o toque da pele, fricção. Logo suas roupas, uma a uma, foram arremessadas ao alto e pareciam explodir como fogos de artifício: finalmente nus. E como o mundo girava naquela cama redonda!
Cama redonda relógio e nós ponteiros. Ponteiros girando, apontando os movimentos. Olhar não mais no teto, mas agora vejo seus olhos, sua cintura, sua boca, seus seios, seus braços, suas mãos, seu sexo, e não só vejo, sinto, apalpo, cheiro, invado e nós girando, relógio desgovernado, e aqui, em frente a esse mundo-cama, um grande espelho, testemunha viva, cúmplice da nossa ausência de tempo.
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Praticam o óbvio: esquecem-se dos sentidos entregando-se a eles, sentindo cada gota de chuva, cada canto de pássaro, cada corte de vento e o frio e o gelo na espinha: o barulho de uma tourada. Como correm esses touros.
Gritos audíveis ou abafados atravessando paredes de finura-papel. Depois, a voz do vento contanto segredinhos, entrando e saindo, imobilizando-os aos poucos, relógio quase sem pilha, porque logo ficariam parados, fixos em algo chamado contemplação, cansaço ou madrugada.
E em minutos o sol faria aparição translucida, através da cortina salmão, para denunciar o fim da noite, e anunciar as responsabilidades do dia seguinte. Tão duro, quase uma tortura, acordar com raios de sol fazendo vagarosas cócegas no rosto, pinicando o corpo, sol. “Tentemos fugir dele!” timbre de voz de quem teria uma idéia e sim, a idéia nasceu mais rápida que o sol: olhou para ele e disse “me ajude, vou atrasar o relógio”.
23 junho 2011
21 junho 2011
Labirinto
Chegaram com o leve embaraço de quem está perdido ou de quem quer se encontrar. Seria ali. Vamos? Sim. Corredor estreito, alguns degraus, uma porta trancada, logo aberta, breve conversa, documentos entregues em troca de uma chave, outra porta aberta e então o labirinto-caracol. A cada passo que davam, adentravam em um mundo de luz cada vez mais turva e a timidez inicial ia se diluindo pela surpresa, pela descoberta das paredes descascando e das molduras quase que pedindo um retrato. Perceberam que as paredes se afunilavam e sem se importarem, iam girando. Voltas e voltas. Caracol. Acharam o centro: quarto número catorze.
19 junho 2011
Espelho
Ao cruzarem aquela porta sabiam muito bem que entrariam em lugar exótico, talvez a Grécia, e que poderiam encontrar um bouzouki abandonado, um livro deixado sem ponto final, qualquer coisa. Primeiro encontraram a escuridão. Viram estrelas. Constelação-dela-Touro. Mãos no interruptor. Fez-se luz: gostoso-estranhamento. Agora poderiam escrever, compor os atos, movimentando-se em ritmo próprio a partir do som do bouzouki. Saltaram, então, para uma tão redonda cama - mais parecida com um relógio - que seus corpos só poderiam ser ponteiros - ele o de minutos, ela o de horas mais baixa que era- apontando esses vertiginosos movimentos corpóreos e temporais: para sempre guardados naquele quadro luminoso, grande espelho, testemunha viva, cúmplice dos distintos movimentos dos ponteiros, de um relógio com vida própria.
Naquele dia, um temporal alagou a cidade.
Naquele dia, um temporal alagou a cidade.
17 junho 2011
Ana, uma Rosa
Lembrou-se subitamente que sempre quis ser pintor. Gostava de transformações, de composições, de pular amarelinha para sentir o céu e o inferno. Lembrou-se também que sempre quis criar uma flor, um fantasma em forma de flor e por que não agora, enquanto andavam, ombro a ombro, quase calados? Sim, agora. Primeiro pôs o amarelo e foi pintando o entorno - as poucas palavras, as pessoas, si próprios, tudo - até ter que, inevitavelmente, despejar o verde, muito verde, entrar no verde, sabendo que logo encontraria a mesma despedida fantasmagórica de cinco anos atrás: já estavam no azul, tudo azul, linha azul e Ana, uma Rosa.
Ao partir, percebeu que se esqueceu de entregar-lhe a flor.
Ao partir, percebeu que se esqueceu de entregar-lhe a flor.
03 junho 2011
Sossego
Juntou dinheiro por alguns anos. O que pôde comprar foi um apartamento no primeiro andar de um edifício pequenino; mas sobraram uns trocados. Passou bons dias, regados a gim, até notar que o vizinho do andar de cima caminhava de maneira ritmada: era ritmo de botas no assoalho, de interrupção de sonhos, de batuque que lembrava o galopar de cavalos. Odiava cavalos. Puto da vida foi comprar um protetor auricular. Não achou. Pensou em presentear o vizinho com um tapete. Não tinha dinheiro suficiente. Resolveu comprar um serrote. Esperou que o vizinho dormisse e galopou até o andar de cima.
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